Entrada do BRB, Banco de Brasília, em 18 de novembro de 2025. Reuters/Mateus Bonomi A relação entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB) ganhou novos contornos nesta semana, após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), levantar o sigilo das principais investigações sobre o caso.
Nos documentos, a Polícia Federal (PF) apresenta novos elementos que sustentam a linha de investigação segundo a qual grande parte dos créditos comprados pelo BRB do Banco Master estaria ligada a operações irregulares. Os investigadores também apontam que as negociações continuaram mesmo diante de sinais de fraudes e inconsistências nas carteiras.
📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia Na prática, o laudo aponta que o BRB pagava por carteiras de crédito antes mesmo da conclusão das análises técnicas obrigatórias que deveriam avaliar a qualidade desses ativos. Segundo os peritos, a diretoria do banco continuou aprovando novas operações mesmo após alertas internos sobre problemas de documentação, liquidez e inconsistências identificadas nas carteiras negociadas.
Entenda a cronologia dos fatos e como se desenrolou a relação entre Master e BRB: Agora no g1 BRB já havia recebido alertas sobre riscos no Master Quando o BRB começou a ampliar a compra de carteiras de crédito do Banco Master, já existiam sinais de alerta sobre a situação da instituição. As primeiras advertências não apontavam necessariamente para uma situação de insolvência, mas indicavam que o crescimento acelerado, a estrutura financeira e o modelo de negócios do Master deveriam ser examinados com atenção.
🔎 Em outubro de 2023, a Fitch Ratings, agência especializada em avaliar a capacidade de empresas e governos de pagar suas dívidas, melhorou a nota atribuída ao Banco Master. Apesar disso, ela destacou a volatilidade dos resultados, a complexidade do modelo de negócios e a exposição a ativos de baixa liquidez. Ainda assim, as compras de carteiras do Master pelo BRB começaram a ganhar escala em 17 de julho de 2024.
Naquele dia, a diretoria do BRB autorizou o banco a gastar até R$ 750 milhões na aquisição desses créditos. A decisão abriu uma série de novas compras, que cresceriam nos meses seguintes. Nesse mesmo período, a própria área técnica do BRB passou a registrar sinais que exigiam atenção.
Pareceres de setembro e dezembro de 2024 apontaram que os ativos do Master haviam crescido 83,5% em apenas 12 meses, chegando a R$ 50,9 bilhões. A carteira de crédito avançou 81,6%, para R$ 21 bilhões, enquanto a reserva destinada a cobrir possíveis calotes aumentou 82,9%. 🚨 Os técnicos também classificaram como “muito baixo” o Índice de Basileia do Master, indicador que mostra a capacidade de um banco de absorver riscos e eventuais perdas.
Além disso, destacaram que o caixa correspondia a menos de 10% dos depósitos e que o Master dependia fortemente de plataformas de investimento para captar dinheiro. Outro relatório, produzido pela RISKBank/Eleven em novembro de 2024, apontou que o volume de crédito do Master equivalia a 7,4 vezes seu patrimônio líquido. O documento também chamou a atenção para o caixa reduzido e para a estratégia comercial agressiva do banco.
Segundo a perícia da PF, embora essas informações estivessem disponíveis dentro do BRB, não foram encontrados documentos que comprovassem uma avaliação ampla, independente e organizada dos riscos de concentrar tantos negócios no Banco Master. “A resposta é afirmativa quanto à existência e à circulação das informações de risco, mas negativa quanto à sua adequada conversão em diligência e em condicionamento efetivo das operações”, afirmaram os peritos.
BRB pagou antes de analisar o que havia nas carteiras Além dos riscos que já haviam sido identificados no Banco Master, a Polícia Federal apontou outro problema na relação entre as duas instituições: o BRB liberou dinheiro para comprar carteiras de crédito antes que suas áreas técnicas terminassem de examiná-las. O procedimento esperado seria o contrário.
Antes de efetuar o pagamento, as equipes responsáveis por analisar riscos, preços, documentos e impactos financeiros deveriam verificar o conteúdo das carteiras e avaliar se a compra era segura e vantajosa para o BRB. 🔎 Essas análises permitiriam conferir se os créditos existiam e estavam devidamente documentados, avaliar o risco de calote, verificar se o preço cobrado era adequado, exigir garantias ou até recomendar que a compra não fosse realizada.
Segundo a perícia, porém, essa lógica foi invertida em parte das operações com o Banco Master: o BRB desembolsava os recursos primeiro e concluía apenas depois as análises que deveriam embasar a decisão de compra. A PF examinou 84 compras de carteiras de crédito destinadas a pessoas físicas, que somaram R$ 17,58 bilhões. Em 22 dessas operações, no valor total de R$ 7,63 bilhões, pelo menos uma das avaliações técnicas obrigatórias só foi concluída depois do pagamento.
👉 Isso significa que mais de uma em cada quatro compras foi paga antes do término de todas as análises. Em valores, essas operações representaram 43,41% dos R$ 17,58 bilhões desembolsados pelo BRB nas compras examinadas.
As avaliações concluídas com atraso tratavam de pontos essenciais para decidir se o negócio deveria ou não ser realizado, como: a existência dos créditos e a qualidade das carteiras; a possibilidade de os empréstimos não serem pagos; a adequação do preço cobrado; o impacto da compra sobre o dinheiro disponível no caixa do BRB; a necessidade de exigir garantias do vendedor; a existência e a regularidade dos contratos; a forma correta de registrar as operações nas contas do banco e calcular os impostos envolvidos.
Para os peritos, uma análise concluída depois do pagamento perde sua principal função. Quando o dinheiro já saiu, não é mais possível impedir o negócio, reduzir seu valor, renegociar o preço ou exigir garantias antes da compra. “A assinatura posterior não supre a ausência de controle tempestivo: transforma instrumento de prevenção e suporte à decisão em manifestação predominantemente ex post”, afirma o laudo.
Outros casos em que o BRB pagou antes das aprovações e análises necessárias: O pagamento, em novembro de 2024, de R$ 209,32 milhões por uma operação com o Master um dia antes de a diretoria autorizar o negócio; Outro pagamento de R$ 473,49 milhões, feito em janeiro de 2025. As áreas de Contabilidade e Risco só concluíram suas análises 11 e 14 dias depois do pagamento, respectivamente.
Compras foram divididas para ficar no limite da diretoria Segundo a PF, o BRB dividiu as compras de carteiras do Banco Master em operações menores. Dessa forma, cada negócio permanecia dentro do valor que a diretoria do banco podia autorizar sem consultar o Conselho de Administração. A Diretoria Colegiada podia decidir sozinha sobre operações de até R$ 750 milhões.
Acima desse valor, a compra deveria ser analisada pelo conselho, órgão responsável por decisões de maior impacto para o banco. O laudo mostra que a diretoria autorizou 25 operações que, juntas, somaram R$ 17,5 bilhões. Dessas, 21 foram fixadas exatamente no limite de R$ 750 milhões.
Em janeiro de 2025, por exemplo, o BRB autorizou quatro compras de R$ 750 milhões, num total de R$ 3 bilhões. Algumas dessas decisões foram tomadas com apenas dois dias de intervalo. Para os peritos, a repetição do mesmo valor, o curto espaço de tempo entre as compras e o fato de todas envolverem o Banco Master indicam que os negócios faziam parte de uma estratégia única.
Analisadas separadamente, as operações permaneciam dentro do limite da diretoria. Consideradas em conjunto, deveriam ter sido submetidas ao Conselho de Administração. “A segmentação manteve cada ato dentro da alçada formal da Diretoria, mas suprimiu do CONSAD [Conselho de Administração] a apreciação integrada de uma estratégia contínua, concentrada e equivalente a 23,3 alçadas individuais da DICOL [Diretoria Colegiada].
A forma documental preservou aparência de regularidade; a substância econômica revelava decisão agregada de materialidade muito superior.” Documentos, repasses e cobranças sob suspeita Em fevereiro de 2025, o BRB criou um grupo de trabalho para verificar as carteiras de crédito compradas do Banco Master. O primeiro relatório, concluído em abril do ano passado, apontou problemas que dificultavam confirmar se os empréstimos existiam, estavam devidamente documentados e poderiam ser cobrados.
Entre os achados estavam: dados fictícios e controles feitos manualmente em planilhas; falta de acesso aos documentos que formalizavam os empréstimos; ausência de comprovação de que as parcelas seriam descontadas na folha de pagamento dos clientes; contratos gerados e assinados pelo próprio Master, sem a assinatura dos clientes, na amostra analisada; divergências financeiras que chegavam a R$ 1,39 bilhão em valores brutos.
Mesmo depois desse relatório, a diretoria do BRB autorizou mais R$ 2 bilhões em compras de carteiras ao longo de abril. Ainda naquele mês, técnicos do BRB fizeram uma inspeção no Banco Master e identificaram R$ 15,5 milhões em parcelas já pagas por clientes, mas ainda não repassadas ao banco público. Segundo o parecer do grupo de trabalho do BRB, o Master reconheceu parte da diferença e transferiu R$ 14,37 milhões durante a visita.
O documento final, concluído em 19 de maio, mostrou que as pendências eram ainda maiores. Havia R$ 265,9 milhões em repasses devidos pelo Master e mais de 1 milhão de parcelas vencidas e ainda em aberto, que somavam R$ 316,5 milhões. Os técnicos também relataram falta de documentos e dificuldades para comprovar a origem dos créditos e o caminho percorrido por eles até chegarem ao BRB.
As descobertas, porém, não interromperam os negócios. Segundo o laudo da PF, o BRB pagou mais R$ 5,23 bilhões ao Master depois que os relatórios internos já haviam apontado problemas nas carteiras. Os pagamentos também continuaram apesar da piora da situação financeira do próprio BRB.
Depois do primeiro alerta formal de que o banco estava com menos dinheiro disponível no curto prazo do que o limite considerado seguro, foram desembolsados outros R$ 7,42 bilhões. Com as novas compras, o BRB ficou cada vez mais dependente do Master. Em junho de 2025, 90,31% das carteiras adquiridas pelo banco público estavam concentradas no Master.
Dos R$ 21,91 bilhões mantidos nessas operações, R$ 19,78 bilhões estavam ligados à instituição. Em termos simples, de cada R$ 10 mantidos pelo BRB nessas carteiras, cerca de R$ 9 estavam concentrados no Master. A liberação de recursos com documentos ainda pendentes continuou aparecendo nas comunicações internas.
Em 22 de agosto de 2025, duas operações que somavam R$ 45,9 milhões avançaram mesmo sem a assinatura do termo da transação e antes da conclusão da análise da área de Risco. Uma mensagem enviada às 17h56 informava que a operação já havia sido registrada na B3, mas que o termo ainda aguardava assinatura. Quatro minutos depois, o diretor-executivo da área responsável respondeu: “Pode seguir com a liquidação”.
O parecer da área de Risco, no entanto, só foi concluído seis dias depois. PF aponta um padrão de ‘gestão fraudulenta’ Para a Polícia Federal, os episódios descritos no laudo não representam falhas isoladas. Ao analisar as operações em conjunto, os peritos concluíram que os mesmos problemas se repetiram em diferentes etapas da relação entre o BRB e o Banco Master.
A análise abrangeu R$ 47,78 bilhões em operações entre as duas instituições. Desse total, R$ 31,74 bilhões correspondiam a negócios em que o Master vendia carteiras de crédito ao BRB.
A perícia identificou uma sequência de práticas que se repetiram ao longo das operações: pagamentos feitos antes da conclusão das análises técnicas; pareceres finalizados depois que o dinheiro já havia sido liberado; compras divididas em valores menores para permanecer dentro do limite de decisão da diretoria; falta de uma avaliação ampla e independente sobre os riscos de negociar com o Master; concentração excessiva das compras em uma única instituição; continuidade dos pagamentos mesmo depois de alertas financeiros e de problemas encontrados nas carteiras.
Na avaliação dos peritos, as compras continuaram enquanto etapas criadas para analisar os riscos, autorizar as operações e controlar a saída de dinheiro eram contornadas ou concluídas somente depois dos pagamentos. A repetição dessa prática levou a perícia a afirmar que havia elementos técnicos e documentais suficientes para caracterizar “gestão fraudulenta” no processo de compra das carteiras do Master.
🔎 Segundo a PF, a conclusão não se baseia apenas no risco ou no possível prejuízo das operações, mas em mecanismos que teriam sido usados repetidamente para reduzir a eficácia dos controles internos do BRB. “A utilização reiterada da forma para encobrir ou neutralizar a substância decisória [...] configura, sob a perspectiva técnico-pericial, padrão compatível com gestão fraudulenta, e não apenas com gestão temerária”, afirma o laudo. Infográfico - Entenda a polêmica dos CDBs do Banco Master Arte/g1
