Delegado, advogado e suspeito de promover lutas entre presos: quem é candidato a deputado Preso em Boa Vista por suspeita de compra de votos, o candidato a deputado federal por Roraima Daniel Pedreiro da Trindade (PL), de 42 anos, é delegado da Polícia Civil do Amazonas, lutador profissional de jiu-jítsu e advogado. Em Roraima, Daniel é suspeito de criar uma milícia privada formada por indígenas para atuar na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, no Norte do estado.
Em 2015, foi investigado por incentivar lutas entre presos, efetuar disparos em via pública e agredir presos com palmatória. ✅ Receba as notícias do g1 Roraima no WhatsApp O g1 tenta contato com a defesa de Trindade. Entenda: Na manhã desta sexta-feira (25), o político foi alvo da Operação Cunhambebe, que apura a formação desse grupo armado.
No entanto, durante as buscas em endereços ligados a ele em Boa Vista, os policiais encontraram indícios de crimes eleitorais. Por causa da suspeita de compra de votos, ele acabou preso e levado à sede da PF. Candidato a deputado federal por Roraima Daniel Pedreiro da Trindade (PL) Reprodução/Instagram Em maio deste ano, agentes federais foram atacados durante uma ação de combate ao garimpo ilegal na comunidade Napoleão.
À época, integrantes de um grupo tentaram bloquear a passagem das viaturas. Em meio às investigações, a Polícia Federal descobriu que Daniel Trindade é responsável por um instituto que ministrava um curso clandestino de segurança privada. Os treinamentos não tinham autorização do órgão e ensinavam técnicas operacionais de segurança.
Quem é Daniel Trindade? O candidato é delegado da Polícia Civil do Amazonas desde 2014. Daniel também atua como advogado e é formado em Direito pela Universidade Federal de Roraima (UFRR), além de Administração e Letras por outras duas instituições privadas.
Ele tem mestrado em Direito Ambiental pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e doutorado em Direito Público pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Daniel foi candidato a prefeito no município do Cantá, em 2024. Nas redes sociais, o candidato afirma ser faixa-preta e professor de jiu-jítsu desde 2007.
Ele também compartilha registros de treinos em comunidades indígenas, como a comunidade São Marcos, em Boa Vista. “Construímos muito mais do que atletas: formamos homens, mulheres, professores e histórias de superação”, afirmou em uma publicação. Em outubro de 2015, o delegado foi investigado no Amazonas por incentivar uma luta entre presos em uma delegacia no município de Juruá.
Um vídeo divulgado nas redes sociais mostra Daniel mediando o confronto, enquanto os detentos são incentivados a trocar socos, chutes e golpes de artes marciais. Depoimentos colhidos na época apontaram que o delegado escolhia os confrontos para se divertir e tratava as lutas como um espetáculo de “selvageria”. De acordo com a investigação, o objetivo era que presos detidos temporariamente, por desordem ou embriaguez, recebessem um “corretivo” dos detentos que já estavam na carceragem.
O acesso às lutas era permitido a qualquer interessado mediante o pagamento de um “bilhete” de entrada. Há registros de que o valor cobrado era de R$ 4, e famílias, incluindo crianças, compunham a plateia. Em novembro do mesmo ano, Daniel Trindade teve uma arma apreendida em Roraima após a suspeita de ter feito disparos em via pública ao sair de uma festa.
À época, um policial informou que os militares ouviram três disparos. Durante a abordagem, Daniel se apresentou como delegado e admitiu que estava armado, mas negou ter efetuado os disparos. Curso de segurança O Instituto Avançar, que o candidato é responsável, é apresentado nas redes sociais como uma iniciativa voltada à educação, cultura, esporte e lazer.
De acordo com as publicações, o projeto oferece cursos de operação de máquinas pesadas, informática básica, pedreiro e agricultura orgânica. Segundo a instituição, mais de 4 mil alunos já foram formados e o projeto tem como objetivo contribuir para “um futuro melhor”. A Polícia Federal identificou que, embora os cursos tivessem nomes administrativos, o conteúdo era voltado a técnicas operacionais policiais e militares, como patrulha rural, ordem unida, técnicas de algemação e marchas.
Um dos pontos centrais dos treinamentos, segundo a investigação, era a preparação para resistir a agentes químicos, como gás lacrimogêneo. Conforme a PF, o objetivo era capacitar os alunos, a maioria indígenas da Comunidade Napoleão, para resistir a ações de dispersão realizadas por policiais e órgãos de fiscalização. Ainda segundo a investigação, Daniel utilizava a experiência operacional e os conhecimentos adquiridos como delegado da Polícia Civil para estruturar os treinamentos de forma tática.
A PF também suspeita que ele tenha facilitado o acesso a produtos controlados pelo Exército, como o próprio gás lacrimogêneo utilizado nos cursos. Segundo a PF, o grupo formado por Daniel tinha como objetivo proteger, de forma armada, áreas de garimpo ilegal, especialmente estruturas de cianetação, além de hostilizar agentes federais, como policiais rodoviários federais e servidores do Ibama, durante ações de fiscalização ambiental na Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
🌄 A Raposa Serra do Sol fica localizada entre os municípios de Normandia, Pacaraima e Uiramutã, e abrange a faixa de fronteira do Brasil com a Guiana. É a segunda maior terra indígena do Brasil em população, de acordo com o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística é um instituto (IBGE). Mais de 26 mil indígenas dos povos Macuxi, Taurepang, Patamona, Ingaricó e Wapichana vivem na região, demarcada pelo Supremo Tribunal Federal.
Em junho de 2025, uma operação da PF na Raposa descobriu "piscinas de cianeto" na Raposa Serra do Sol. A substância é usada no garimpo de forma semelhante ao mercúrio: ela separa o ouro de outros minerais e o deixa limpo. Leia outras notícias do estado no g1 Roraima.
