Gaeco mira advogados por fraude milionária contra aposentados na região de Ribeirão Preto Créditos que idosos ganharam em ações contra bancos foram comprados por menos de 20% do valor, segundo documentos consultados pelo g1. Em dois casos, a compradora foi a empresa do pai do advogado Guilherme Menna Barreto Gentil, preso em flagrante nesta terça-feira (20) durante uma operação do Gaeco.

Somadas, as duas operações do Gaeco feitas nesta terça apuram mais de R$ 12 milhões em saques de processos: R$ 10,9 milhões em contas ligadas ao grupo investigado em Franca e mais de R$ 2 milhões em processos de Guilherme em Altinópolis, segundo o Gaeco. O Gaeco investiga se clientes, a maioria idosos, deixaram de receber o dinheiro a que tinham direito. Chamados pela Justiça, vários deles disseram não saber quanto tinha sido liberado nem que tinham vendido o direito de receber os valores.

✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp A defesa de Guilherme diz que ele não cometeu fraudes nem ficou com dinheiro de clientes. O advogado de Thaís Batista Coelho de Paula e Felipe Cintra de Paula, investigados de Franca, afirma que eles atuam dentro da lei. A defesa de Ana Augusta Furtado Tanno também nega envolvimento dela no caso.

(leia mais abaixo) O g1 procurou os demais investigados e as empresas citadas, mas não havia obtido resposta até a última atualização desta reportagem. Advogados são investigados por esquema de fraude em ações em nome de aposentados e pensionistas na região de Ribeirão Preto Kaique Castro/EPTV Como funcionava a compra dos créditos Vender o direito de receber o dinheiro de um processo, a chamada cessão de crédito, é permitido por lei.

Nos casos encontrados pelo g1, o caminho foi este: A ação: o idoso entrava na Justiça contra um banco, quase sempre por descontos de empréstimo consignado ou tarifas. A vitória: a Justiça dava ganho de causa ao idoso e fixava o valor a receber. A venda: depois disso, o crédito era vendido por menos de 20% do valor.

Em dois casos, à Desenrola, empresa do pai de Guilherme que funcionava no mesmo prédio do escritório dele, em Altinópolis. No outro, à Finalize, de Campo Grande (MS). O saque: depois da venda, o dinheiro do processo deixa de ser do cliente e passa a ser da empresa compradora.

Mesmo assim, nos três casos, o pedido de saque indicava a conta pessoal do advogado. R$ 500 por um crédito de R$ 3,2 mil A ação foi aberta em Altinópolis por outra advogada e repassada a Guilherme em dezembro de 2024. A sentença, de agosto de 2024, reconheceu um crédito total de R$ 3.258,68.

Em setembro de 2024, um contrato transferiu o crédito à Desenrola por R$ 500. O banco pagou em janeiro de 2025. O pedido de saque, de julho de 2025, indicava a conta de Guilherme.

Chamado pela Justiça, o idoso disse ter recebido dinheiro por várias ações, parte só depois de descobrir outros saques e reclamar com o escritório. O advogado Guilherme Menna Barreto Gentil atuava em Ribeirão Preto e Altinópolis (SP) Divulgação/OABSP R$ 3,7 mil por um crédito de R$ 21,4 mil A ação, em Ribeirão Preto, foi aberta por outra advogada e repassada a Guilherme em maio de 2025. Depois de o banco depositar toda a condenação, o crédito foi transferido à Finalize por R$ 3.777.

Houve pedido de saque de R$ 21.424,40 para a conta pessoal de Guilherme. A idosa trocou de advogado. Só depois disso a Justiça mandou o dinheiro para ela.

R$ 1,5 mil por um crédito de R$ 11,2 mil Em outra ação de Altinópolis, dois saques para a conta de Guilherme somaram R$ 11.196,69. O crédito foi transferido à Desenrola por R$ 1,5 mil. A autora contou à Justiça que recebeu em parcelas, parte delas só depois de ser chamada pelo juiz.

Investigados ou alvos de medidas nas operações Libelo e Garatéia, do Gaeco, em Ribeirão Preto, Altinópolis e Franca (SP) Reprodução OAB e Redes Sociais LEIA TAMBÉM Operação do Gaeco investiga esquema de fraude em ações em nome de aposentados e pensionistas no interior de SP; advogado é preso VÍDEO: Advogado preso em operação em SP é suspeito de jogar notebook pela janela antes de polícia apreender equipamento De onde vêm os R$ 12 milhões O valor é a soma de dinheiro sacado de processos em contas ligadas aos investigados nas duas operações.

Não é o prejuízo calculado das vítimas. Libelo (Ribeirão Preto e Altinópolis): mais de R$ 2 milhões foram sacados em processos de Guilherme só em Altinópolis, segundo o Gaeco. Garatéia (Franca): contas ligadas ao grupo investigado receberam R$ 10,9 milhões em saques de processos.

Segundo o Gaeco, só R$ 2,7 milhões desse total foram para pessoas de fora do grupo. Segundo o Gaeco, os dois grupos são distintos, e ainda não há conclusão sobre ligação entre eles. A compra de créditos descrita nesta reportagem aparece na investigação da Libelo.

O que a Justiça fez A Vara de Altinópolis viu indícios de ações em massa feitas de forma abusiva. O juiz passou a chamar os autores pessoalmente, suspendeu saques em processos de Guilherme, exigiu procurações com firma reconhecida e enviou o caso ao Ministério Público e ao Tribunal de Ética da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Advogado alvo de operação joga notebook pela janela antes de polícia apreender equipamento O que dizem as defesas “Em momento algum, ele cometeu fraude, em momento algum, ele se apropriou de valor de cliente”, disse o advogado Julio Mossin, que defende Guilherme. Ele afirmou que o cliente não admitiu ter jogado os equipamentos e que ninguém é obrigado a produzir prova contra si. Para a defesa, não há motivo para que ele continue preso.

Antes da operação, em depoimento à polícia, Guilherme já tinha negado irregularidades e atribuído as reclamações de clientes às vendas de crédito feitas pela Desenrola. Rodrigo negou buscar clientes. O advogado Rafael Spirlandeli, que defende dois investigados de Franca, disse que a investigação começou após denúncia de uma instituição financeira processada por cobrar taxas indevidas de aposentados, e que as ações dos clientes foram julgadas procedentes.

“Meus clientes estão tranquilos, atuam dentro da legalidade e da ética profissional, e irão colaborar com a justiça para que a verdade venha o quanto antes”, afirmou. Em nota, a defesa de Ana Augusta Furtado Tanno afirmou que ela trabalhou por poucos meses, de forma remota, apenas na elaboração de petições e no acompanhamento de processos.

Segundo a defesa, as consultas ao cartório faziam parte dessa rotina e eram repassadas ao escritório que a contratou, sem que ela tivesse poder de decisão ou recebesse valores dos processos. Como se proteger Quem vendeu o crédito de um processo e desconfia que foi lesado pode procurar a Defensoria Pública, um advogado de confiança ou o Ministério Público. O andamento do processo pode ser consultado no site do Tribunal de Justiça.

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