'Retrato de uma Dama', do século 18, é exibido em Mar del Plata, na Argentina, após décadas desaparecido Christian Heit/AP Photo Um retrato italiano roubado de um famoso marchand judeu durante a Segunda Guerra Mundial está prestes a ser devolvido à herdeira de seu verdadeiro dono. Nesta sexta-feira (4), um tribunal argentino aprovou um acordo no qual a filha de um oficial nazista foragido concordou em abrir mão da obra, considerada perdida por décadas, para evitar um julgamento.
O acordo abre caminho para a tão esperada devolução de "Retrato de uma Dama" a Marei von Saher, a única herdeira sobrevivente do negociante de arte judeu holandês Jacques Goudstikker, cuja célebre coleção foi vendida sob coação a oficiais nazistas depois que a Alemanha de Adolf Hitler invadiu a Holanda em 1940.
Patricia Kadgien, filha do falecido oficial nazista de alto escalão Friedrich Kadgien, e seu marido, Juan Carlos Cortegoso, foram acusados de receptação qualificada no ano passado, após autoridades afirmarem que eles esconderam a pintura do século 18, apesar de saberem que ela estava sendo procurada por investigadores argentinos e internacionais.
Agora no g1 Nos termos do acordo, cuja cópia foi obtida pela Associated Press, o casal concordou em renunciar a qualquer reivindicação sobre a obra e consentir com sua devolução a von Saher, em troca de evitar um julgamento criminal e de permanecer sob supervisão judicial por dois anos. Durante esse período, eles devem fazer pagamentos a um hospital na cidade litorânea argentina de Mar del Plata, onde residem, e manter as autoridades informadas sobre seu paradeiro.
Descoberta por acaso O acordo encerra uma busca de gerações pelo retrato desaparecido e uma saga jurídica de um ano que começou em agosto de 2025. Repórteres holandeses que investigavam Friedrich Kadgien — um oficial nazista foragido que fugiu para a Argentina após a Segunda Guerra Mundial — identificaram "Retrato de uma Dama" pendurado sobre um sofá de veludo verde em um anúncio imobiliário online da casa rústica de sua filha em Mar del Plata.
O anúncio desapareceu poucas horas depois de o jornal "Algemeen Dagblad", sediado em Roterdã, publicar suas descobertas. A polícia realizou buscas na casa várias vezes, mas não conseguiu encontrar a pintura. Mais de uma semana depois, o advogado de Kadgien entregou a obra às autoridades.
Durante décadas, o retrato foi identificado como uma obra do pintor barroco italiano Giuseppe Vittore Ghislandi. Ele constava com essa atribuição nos registros da coleção de Goudstikker e foi exibido como um Ghislandi em Amsterdã antes da guerra. No entanto, uma perícia ordenada pela Justiça e realizada pela Academia Nacional de Belas Artes da Argentina chegou a uma conclusão diferente, atribuindo a obra ao artista italiano Giacomo Antonio Melchiorre Ceruti.
Especialistas autenticaram a pintura como parte da coleção de Goudstikker e estimaram seu valor em cerca de 250.000 de euros (R$ 1,49 milhão). Goudstikker foi um dos principais negociantes de arte da Europa antes da Segunda Guerra Mundial, conhecido por uma coleção que incluía obras de Rembrandt e Vermeer. Ele morreu em um naufrágio enquanto fugia de Amsterdã com a família, no momento em que as forças alemãs invadiam os Países Baixos, em maio de 1940.
Estima-se que 1.100 obras de sua coleção tenham sido vendidas ilegalmente a Hermann Göring — conhecido como o braço direito de Hitler —, que acumulou um vasto acervo de arte durante a guerra. Não está claro exatamente como "Retrato de uma Dama" chegou às mãos de Kadgien, consultor financeiro de Göring responsável por lidar com moeda estrangeira, metais preciosos e a venda de bens confiscados pelo regime nazista.
Kadgien fugiu da Europa após a derrota da Alemanha, indo primeiro para a Suíça e, mais tarde, para a Argentina. Ele morreu no país sul-americano em 1978, sem ter sido preso ou acusado de crimes de guerra. Os advogados de von Saher — que atualmente vive em Greenwich, Connecticut, e passou décadas tentando recuperar as obras de arte saqueadas de sua família — informaram que ela concordou em permitir que a pintura fosse exibida na Argentina antes de ser devolvida a ela.
Durante as buscas realizadas no ano passado em imóveis pertencentes a Kadgien e sua irmã em Mar del Plata, a polícia argentina também apreendeu duas pinturas do século 19, além de outras gravuras e impressões. As autoridades ainda investigam se alguma dessas obras também pode ter sido saqueada durante a Segunda Guerra Mundial.
