Thaumatocaryon hilarii Luis Adriano Funez A última vez em que a ciência parou para olhar com atenção para as pequenas ervas do gênero Thaumatocaryon foi há quase um século. Em 1927, o botânico norte-americano Ivan Murray Johnston publicou a primeira revisão completa do grupo, reconhecendo apenas três espécies. Guarde essa informação, porque ela é importante, e a razão vai ficar clara mais adiante.
📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram Quase 100 anos depois, uma nova pesquisa publicada na revista científica Phytotaxa trouxe à tona uma diversidade até então oculta, revelando que a riqueza dessas plantas nativas da América do Sul foi historicamente subestimada, com consequências preocupantes para a conservação da biodiversidade brasileira.
Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: BELEZA ARRISCADA: Estudo com 4,3 mil aves encontra relação entre penas e ameaça de extinção NOVA PESQUISA: Quando faltam frutos, macacos-prego aumentam caça de pequenos vertebrados, aponta estudo VENENO QUE PARALISA E 'DERRETE': Veja como a aranha-de-alçapão caça em esconderijo perfeito Borragens do banhado e a história de uma linhagem milenar As espécies de Thaumatocaryon são pequenas plantas herbáceas, geralmente associadas a ambientes úmidos e abertos, como campos naturais, margens de rios e banhados, e, menos frequentemente, às bordas de florestas.
Apesar de ocorrerem no Brasil, são um grupo pouquíssimo conhecido por aqui. Tanto que a única referência encontrada a nomes populares atribuídos ao gênero aparece na Flora Ilustrada Catarinense, que registra 'borragem-miúda-do-campo' e 'borragem-miúda-do-banhado' “Borragem”, por sua vez, é um nome popular utilizado de forma relativamente genérica para plantas da família Boraginaceae, à qual Thaumatocaryon pertence. Um exemplo mais conhecido da mesma família é o confrei.
Thaumatocaryon e Moritzia, seu gênero-irmão, são os únicos representantes atuais da tribo Boragineae nas Américas. As demais espécies do grupo são encontradas na Europa e na Ásia. O registro fóssil, porém, revela uma história muito mais ampla: no passado, essas plantas tiveram uma distribuição muito maior, com ocorrências que se estendiam da América do Norte até a América do Sul.
Em algum momento ao longo dessa história, as linhagens norte-americanas foram extintas, e o grupo acabou ficando restrito à porção meridional da América do Sul, além de uma espécie nos Andes. Thaumatocaryon quiririense Luis Adriano Funez De 3 para 9 espécies: o resgate da diversidade oculta Desde a revisão de Johnston, em 1927, até o presente trabalho, eram reconhecidas apenas duas ou três espécies de Thaumatocaryon, dependendo do autor.
“Nossa investigação, entretanto, revelou uma diversidade muito maior: o gênero agora passa a compreender nove espécies, incluindo um nome revalidado (Thaumatocaryon hilarii) e seis espécies novas para a ciência (como T. hispidissimum, T. macrophyllum, T.
moritziiflorum, T. parviflorum e T. quiririënse)”, pontua Luiz Funez.
A identificação das novas espécies foi possível graças à análise minuciosa de espécimes depositados em diversos herbários do Brasil e do exterior, além de expedições de campo no Sul e Sudeste do país. “Detalhes imperceptíveis a olho nu, como a disposição das folhas, a presença e o formato de minúsculos pelos (tricomas), a cor das flores e o comprimento do tubo da corola, foram fundamentais para delimitar cada um dos novos táxons”.
Corrida contra o tempo: o fantasma da extinção A parte mais alarmante do estudo veio com a avaliação do status de conservação das plantas. “A parte mais cruel desse estudo veio quando avaliamos o status de conservação dessas plantas: concluímos que todas as espécies estão ameaçadas de extinção”, pondera o pesquisador. E há algo ainda mais preocupante: três das espécies recém-descritas são conhecidas por apenas um único registro de herbário.
Thaumatocaryon tetraquetrum Luis Adriano Funez “Isso significa que existe a possibilidade de que algumas delas já estejam completamente extintas, destruídas antes mesmo de serem apresentadas ao mundo”, alerta.
As principais ameaças às borragens-miúdas estão ligadas à drenagem e conversão de áreas úmidas e banhados para a agricultura, o avanço da silvicultura de espécies exóticas (como pinus e eucalipto), o crescimento urbano desordenado e a degradação da Floresta de Araucárias e dos Campos Sulinos, biomas que já perderam a maior parte de sua cobertura original.
O perigo de subestimar a natureza Esse trabalho demonstra de forma bastante clara como subestimar a diversidade de um grupo pode aumentar drasticamente o risco de extinção de suas espécies. “Quando várias espécies distintas são tratadas como uma ou duas espécies ‘comuns’ e de ampla distribuição, a avaliação de risco tende a mascarar a realidade.
O que parece ser uma planta abundante e amplamente distribuída pode, na verdade, ser um conjunto de várias espécies, cada uma extremamente rara e restrita a uma pequena área de ocorrência”, explica. “Às vezes, descobrir que existem mais espécies não é apenas uma questão de taxonomia. É também descobrir quantas delas podem estar desaparecendo sem que sequer saibamos que existem”, conclui Funez.
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