Pesquisa inédita aponta desvios de munições que acabam nas mãos de criminosos Uma pesquisa inédita do Instituto Sou da Paz identificou munições de fuzil compradas pelo Exército Brasileiro em apreensões ligadas ao Comando Vermelho. O levantamento analisou registros de mais de 31 mil cartuchos intactos, apreendidos em diferentes estados brasileiros. Segundo o estudo, quatro em cada dez munições apreendidas com integrantes da facção nos casos analisados eram de fabricação nacional.
Os pesquisadores também identificaram que parte dos cartuchos havia sido produzida pouco tempo antes das apreensões. O levantamento foi feito a partir do cruzamento de laudos periciais e processos judiciais. A análise revelou padrões que se repetem em diferentes estados e dificuldades para identificar como munições adquiridas legalmente chegaram às mãos de criminosos.
Há cerca de 20 anos, a munição nacional comprada por forças de segurança passou a ter um código de rastreabilidade gravada em cada cartucho. Com isso, as munições encontradas em uma cena de crime conseguem ser identificadas. Porém, não há registro de possíveis repasses ou compradores destes armamentos.
O estudo descobriu que parte das munições usadas por criminosos para atacar policiais durante a megaoperação realizada no Rio de Janeiro, em 2025, pertencia às próprias forças de segurança. Os pesquisadores também analisaram uma carga de 1.804 cartuchos interceptada no Distrito Federal, em 2019, que tinha como destino o Rio de Janeiro.
Entre as munições, havia lotes do Exército, das polícias militares do Distrito Federal e do Rio de Janeiro, do Fundo Estadual de Segurança de Mato Grosso e do Ministério da Justiça, que já haviam aparecido em outras apreensões. "Isso diz pra gente que essa fonte de desvio é uma fonte grande, é uma fonte que envolve bastante gente, mas que não conseguiu ser totalmente desbaratada pela polícia", explica Bruno Langeani, consulto do Instituto Sou da Paz.
Pesquisa mostra que munições compradas pelo exército chegam ao crime organizado Reprodução/Fantástico Apreensão em Fortaleza Em janeiro de 2025, uma investigação policial em Fortaleza, no Ceará, revelou um plano do Comando Vermelho para resgatar presos de uma unidade prisional do estado. Durante o monitoramento de integrantes da facção, policiais penais da inteligência foram surpreendidos por homens armados. Um agente morreu e outro ficou ferido.
Quatro presos vão a júri popular pelo caso. Na ação, a polícia apreendeu 400 cartuchos de fuzil. Segundo o Instituto Sou da Paz, fotografias da apreensão mostravam caixas com embalagens originais de munição brasileira, mas essas informações não foram incluídas no inquérito policial, o que impediu uma tentativa de rastreamento.
O pesquisador Bruno, do Instituto Sou da Paz, explicou que, mesmo quando há investigação sobre a origem das munições, nem sempre é possível identificar o caminho percorrido pelos cartuchos. Em muitos casos, as instituições conseguem confirmar a compra e o recebimento do material, mas não sabem informar como ele foi distribuído depois de chegar aos depósitos. A organização diz que está cobrando o exército para que a lista dos códigos dos compradores seja disponibilizada publicamente.
"A sociedade tem direito de saber o que está sendo feito com uma munição que foi comprada com recurso público", diz o consultor. Notas A Polícia Militar do Distrito Federal disse que “os protocolos internos de controle, armazenamento e carga de munições foram revisados e aprimorados, com o objetivo de fortalecer os mecanismos de fiscalização". Já o o Exército disse que “reconhece a gravidade dos fatos relacionados ao extravio ou furto de munições e reforça que não compactua com desvios de conduta.
A fim de coibir irregularidades e garantir que o rastreamento seja cada vez mais preciso, há uma constante revisão dos procedimentos de controle. Caso haja indícios de irregularidades, o Exército determina a abertura imediata de procedimento investigatório, como o Inquérito Policial Militar (IPM), com a finalidade de elucidar os fatos, recuperar o material e responsabilizar os envolvidos, atuando em estreita colaboração com os órgãos de segurança pública".
Também por nota o Ministério da Justiça e Segurança Pública disse que “o desvio de armas e munições legais para a ilegalidade é um dos focos da política de controle responsável de armas e munições, retomada pelo Governo Federal em 2023.
O Ministério seguirá aprimorando com os demais órgãos, os mecanismos para identificar a origem das armas e munições que chegam ao crime organizado.” Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação.
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