Adobestock No supermercado, quem não tolera bem laticínios aprende a caçar uma palavra na embalagem: "zero". O que quase ninguém sabe é que ela não quer dizer ausência de lactose. Todo leite tem o açúcar naturalmente; o que a indústria faz, nesses produtos, é adicionar uma enzima que o quebra antes de a caixa chegar à prateleira.
Some quase tudo —mas nunca tudo. Por isso a legislação brasileira só libera o rótulo "sem lactose" quando resta, no máximo, 100 miligramas do açúcar a cada 100 mililitros: uma fração ínfima, mas existente. Ainda assim, há quem continue passando mal mesmo com a versão isenta na geladeira —e, quase sempre, o culpado não é esse pouco que sobrou.
Quebra nunca é completa Nenhum leite nasce sem lactose. Todo leite de vaca carrega o açúcar naturalmente, algo entre 4 e 5 gramas a cada 100 mililitros. O que transforma o produto comum na versão "zero" é a entrada de uma enzima, a lactase, ainda na indústria.
Ela faz, dentro da própria embalagem, o serviço que o intestino de quem é intolerante não dá conta de realizar: parte a lactose em dois açúcares menores, a glicose e a galactose, que o corpo absorve sem esforço. Quando o consumidor abre a caixa, a maior parte do açúcar já foi digerida para ele. Essa quebra, porém, nunca é total.
Escapa sempre uma fração de lactose intacta, e é ela que permanece no produto final, dentro do limite de 100 miligramas por 100 mililitros. "A indústria faz esse trabalho por você, mas não consegue garantir a quebra de toda a lactose. Sempre resta um resíduo mínimo", explica Giovanna Pisanelli, doutora em Ciência dos Alimentos.
É esse resíduo que o rótulo, ao dizer "zero", não mostra. Agora no g1 Pouco a ponto de passar despercebido A quantidade que sobra é o que a legislação considera desprezível. O limite de 100 miligramas foi fixado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa): abaixo dele, o produto pode ser chamado de isento de lactose; entre 100 miligramas e 1 grama, entra na categoria de baixo teor.
A régua é baixa porque parte de uma constatação clínica. "É muito raro alguém ter sintomas com até 100 miligramas de lactose. Para desencadear desconforto, costumam ser necessárias quantidades bem maiores, na casa dos gramas", afirma Patrícia Holanda Almeida, gastroenterologista do Einstein Hospital Israelita.
Na fiscalização feita pelo Mapa entre 2021 e 2025, a conformidade dos lácteos analisados ficou acima de 97% em todos os anos —sinal de que, na esmagadora maioria dos casos, o resíduo respeita o teto permitido. Nem sempre o problema é a lactose Se o resíduo é tão baixo, resta a pergunta que originou a dúvida: por que há quem passe mal mesmo com o leite zero? A resposta tem duas partes.
A primeira é que existe, sim, um grupo menor de pessoas com intolerância acentuada capaz de reagir a essa fração mínima. A segunda parte é a mais importante —e a que os médicos pedem para não pular. Na maior parte dos casos em que o sintoma persiste, o culpado não é a lactose residual, e sim outra coisa.
"Não é impossível que ela cause sintomas, mas não dá para responsabilizá-la antes de descartar outras condições", diz Patrícia. Entre as suspeitas que ela investiga estão a síndrome do intestino irritável, o supercrescimento bacteriano no intestino delgado e a intolerância a outros açúcares, como a frutose, muitas vezes presente no mesmo produto. Parte da confusão vem de trocar a lactose por uma proteína do leite.
Muita gente passa mal com o leite comum e credita o incômodo ao açúcar, quando na verdade reage à caseína —a principal proteína do leite, presente em qualquer copo, com ou sem lactose. É o que ajuda a explicar a boa fama do leite A2: ele não tem menos lactose, mas é produzido por vacas que fabricam uma versão levemente diferente dessa proteína, mais fácil de digerir. Quem se sente melhor ao trocar o leite comum pelo A2 costuma descobrir que o problema nunca esteve na lactose.
Shutterstock Sintomas x diagnóstico Confirmar a intolerância começa por uma distinção que costuma escapar. Absorver mal o açúcar não é o mesmo que ser intolerante: há quem tenha a má absorção apontada num exame e não sinta nada no dia a dia. O que caracteriza a intolerância, segundo Patrícia, é o sintoma —a queixa que surge depois de consumir leite ou derivados.
Sem sintoma, não há intolerância a tratar. Diante da queixa, alguns exames ajudam a fechar o quadro. O teste genético aponta a predisposição sem expor a pessoa ao açúcar, o que evita o mal-estar.
No teste respiratório, o paciente assopra num aparelho parecido com um bafômetro depois de ingerir uma dose de lactose. E o exame de sangue acompanha a glicose: mede-se o valor em jejum, o paciente toma o produto com lactose e a glicemia é aferida de novo ao longo da hora seguinte. Se o açúcar foi quebrado e absorvido, a glicose sobe pelo menos 20 pontos; quando quase não se mexe, é sinal de que ele não foi digerido.
O que fazer diante do desconforto Confirmada a intolerância e afastadas as outras causas, seguir sentindo sintomas com a versão sem lactose não obriga ninguém a abandonar o leite de imediato —mas o passo seguinte é de um especialista, não do balcão do supermercado. É ele quem avalia o caso, indica o que testar e ajusta a conduta a cada paciente, já que a tolerância varia de pessoa para pessoa. Entre as saídas que o médico pode recomendar está a troca de marca.
Como a dosagem da enzima não é padronizada, o teor residual muda de um fabricante para outro, e há opções mais limpas na prateleira. "Existem marcas com nível mais baixo e regular, e pacientes que toleram melhor uma do que outra", conta Patrícia —o que explica alguém reagir bem a um leite e mal a outro, ainda que ambos estampem "zero" no rótulo.
A depender do quadro, ele pode orientar o uso de lactase em cápsula junto ao alimento ou a redução da porção de uma vez, estratégia que se apoia numa característica da condição: "O intolerante não tem alergia. Ele mantém alguma capacidade de lidar com o açúcar, e o quanto é individual", diz a médica. Quando nada funciona, diz, entram as bebidas vegetais, à base de aveia ou amêndoa.
Mais do que definir o que ingerir, porém, o acompanhamento ajuda a domar os sintomas na origem. Cuidar da saúde intestinal, praticar atividade física e controlar o estresse reduzem a frequência do desconforto —não apagam a intolerância, mas tornam a convivência com ela mais leve. Não por acaso, observa Patrícia, muitos pacientes relatam menos episódios nas férias, quando a pressão do dia a dia afrouxa.
O que a médica desaconselha é o caminho inverso, de cortar alimentos por conta própria: “Muitos chegam ao consultório com a dieta tão restrita que já apresentam deficiências nutricionais”, diz. “Por isso, o diagnóstico é fundamental para que o médico defina a melhor conduta.”
