O sol da tarde desenha sombras no chão avermelhado de ferro. O vento corre leve entre as fileiras de espaldeira, enquanto o guia Danilo Dezem convida o grupo a seguir viagem pelos parreirais de uvas Merlot, Cabernet e Taná. A cena poderia ser de uma vinícola europeia, mas acontece no coração do Oeste paranaense, em Toledo, na Vinícola Dezem, uma das mais tradicionais da região.

Filho do fundador, Danilo transforma cada explicação técnica em um mergulho na história da propriedade. Entre risadas, curiosidades sobre fungos e formatos de barricas, o visitante percebe que há algo de diferente naquele lugar. E essa diferença começa pela motivação que o ergueu.

“A Dezem, apesar de ser uma empresa lucrativa, nunca teve como objetivo o lucro. O objetivo sempre foi reunir a família, reviver os momentos dos italianos, a colheita, a poda, o trabalho conjunto”, conta Danilo. Um sonho que começou no sótão A história da vinícola nasceu muito antes da primeira garrafa ser engarrafada.

O patriarca, Amélio Dezem, foi balconista, empresário e empreendedor em vários ramos, mas nunca abandonou um sonho de infância: ter uma vinícola própria. Quando criança, ele passava as tardes no sótão com o avô, um tanoeiro que consertava pipas de madeira por hobby. Era lá, entre o cheiro da madeira úmida e o gosto do vinho recém-feito, que ouvia histórias da chegada da família ao Brasil e da colheita das uvas na Itália.

Foi nesse sótão que guardou o desejo de, um dia, recriar aquela lembrança. Décadas depois, com o trabalho consolidado e a família formada, Amélio decidiu transformar o terreno de soja em um espaço dedicado ao vinho e à convivência. A estrutura da Vinícola Dezem foi construída do zero, inaugurada em 2004, e hoje soma mais de 20 anos de história.

“Meu pai falava que o vinho era o jeito mais bonito de juntar gente. Ele vinha todos os dias, mesmo quando já estava doente, só pra ver como estavam as plantas ou as barricas”, relembra Danilo. O espaço subterrâneo da vinícola guarda uma das homenagens mais tocantes.

A cave dedicada a Amélio mantém, no chão, a pintura original feita por ele e pela esposa. “Meu pai gostava de pintar paredes e o chão. Quando fomos reformar, mantive o pedaço em frente à cave dele sem repintar, é o traço dele ali, preservado”, conta Danilo.

A família Dezem transformou uma paixão antiga em tradição. Divulgação/Kariny Camilo e Thabata François. O vinho entre ciência e arte Na parte técnica da visita, o público descobre que cada taça envolve um trabalho minucioso e artesanal.

Danilo explica que a propriedade tem cerca de 3,5 hectares de parreirais, o que representa uma produção anual de aproximadamente 35 mil garrafas. O sistema de plantio é o de espaldeira, no qual as videiras crescem na vertical, facilitando a ventilação e a insolação. “Produzimos menos, mas com uvas mais doces e alcoólicas.

Assim, o vinho atinge 13% a 14% de álcool natural, sem precisar adicionar açúcar de cana”, explica. As barricas de carvalho, que enchem o ar de aroma amadeirado, são outro capítulo da experiência. São 58 ao todo, de origem francesa e americana, com capacidade de 220 litros cada.

Enquanto as francesas conferem notas de café e tabaco, as americanas trazem um toque de baunilha e chocolate amargo. “O francês é mais intenso, o americano é mais tranquilo. É como se um tivesse alma de espresso, e o outro, de sobremesa”, brinca o guia.

O processo de fermentação também é apresentado de forma didática: “A levedura consome o açúcar e o transforma em álcool. Quanto mais doce for a uva, mais alcoólico será o vinho. Por isso, cada safra é única.

A gente nunca faz um vinho igual ao do ano anterior”, explica Danilo diante dos tanques de inox. As barricas de carvalho fazem parte do processo de amadurecimento dos vinhos da vinícola. Divulgação/Kariny Camilo e Thabata François.

Degustar é sentir a história Ao final da visita, o grupo segue para a sala de degustação. As taças de espumante tilintam sobre o balcão, enquanto a conversa gira em torno de aromas e sensações. Um visitante comenta que sentiu “fumaça”, outro identifica “carvalho” e um terceiro arrisca “ameixa”.

Danilo sorri, como quem já ouviu dezenas de descrições diferentes. Durante a experiência, ele também ensina sobre harmonização: vinhos ácidos para pratos gordurosos e vinhos leves para refeições delicadas. “É como uma dança entre o prato e a taça”, compara.

A visita termina, mas o encantamento segue. O som das conversas se mistura ao burburinho do pátio, e muitos visitantes ficam para fotografar os parreirais, reservar um piquenique ou um jantar à luz de velas. “Tem gente que vem fazer pedido de casamento, ensaio de foto, comemorar aniversário.

E é isso que a gente quer: que as pessoas vivam boas memórias aqui”, diz Danilo. A degustação transforma o vinho em uma experiência de descoberta. Divulgação/Kariny Camilo e Thabata François.

O legado que permanece Hoje, a Vinícola Dezem se consolidou como um dos destinos de enoturismo do Oeste do Paraná. As visitas acontecem aos fins de semana, reunindo grupos que vão de casais a turmas de 30 pessoas. Além dos passeios, a família também organiza eventos especiais e mantém o espaço aberto para experiências particulares.

Mas, no fim, tudo ainda gira em torno de um mesmo propósito: reunir a família e manter viva a lembrança de Amélio. “Meu pai construiu a Dezem pra gente se encontrar. E é isso que ela continua sendo: um ponto de encontro”, resume Danilo.

Entre as barricas silenciosas e as garrafas que amadurecem no escuro das caves, há mais do que vinho. Há tempo, memória e cuidado. Há uma herança que se serve em taças, mas se guarda no coração.

Mais do que produzir vinho, a Vinícola Dezem nasceu com o propósito de reunir a família. Divulgação/Kariny Camilo e Thabata François. Texto produzido por Kariny Camilo e Thabata François, acadêmicas do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, sob orientação da professora Julliane Brita, para a 24ª edição da Revista Verbo, veiculada na 5ª edição do City Farm FAG.