Maíra Rodrigues é a primeira mestre quilombola da Unicamp Arquivo Pessoal Nascida no Quilombo de Ivaporunduva, em Eldorado (SP), a professora Maíra Rodrigues da Silva construiu uma trajetória marcada pela superação, pelo pioneirismo e pelo compromisso com a educação. Ela é a 1ª mestre quilombola formada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Maíra concluiu o doutorado neste ano e hoje retorna semanalmente à comunidade onde cresceu para ensinar e inspirar novas gerações.

Mulher quilombola, ela levou consigo as raízes, a memória e a luta de sua comunidade para ocupar espaços acadêmicos que, durante muito tempo, pareciam distantes da realidade de muitos jovens do território onde nasceu. ✅ Clique aqui para seguir o novo canal do g1 Santos no WhatsApp. O Quilombo de Ivaporunduva está localizado a cerca de 50 quilômetros do centro de Eldorado e carrega uma história de resistência.

Fundada há quase 400 anos por escravizados, a comunidade é reconhecida como a mais antiga do estado de São Paulo e foi a 1ª a obter o título definitivo de suas terras. Agora, o território carrega mais um marco: tem a primeira mestre quilombola da Unicamp. A vocação para o ensino acompanhou Maíra desde cedo.

Inspirada pela mãe, que também era professora, ela encontrou na educação um caminho para o crescimento pessoal e profissional. Agora no g1 Há 16 anos, deixou a comunidade para ampliar a formação acadêmica. Maira se formou em Ciências Biológicas, fez especialização em Agroecologia e conquistou o mestrado neste ano.

"Eu tenho uma memória muito gostosa desse lugar que a gente, enquanto quilombola, tem a importância da memória. Os nossos professores, e na minha época minha mãe era a professora, contavam muito da história da comunidade, como é que os nossos antepassados chegaram", disse. Morando em Campinas, agora, ela segue desenvolvendo pesquisas sobre política e gestão de recursos naturais, com foco em temas como contaminação ambiental e impactos provocados pela ação humana na natureza.

Professora Maíra Rodrigues da Silva Arquivo Pessoal De volta à sua terra Porém, a conquista dos títulos acadêmicos não a afastou das origens. Pelo contrário. Atualmente Maíra retorna uma vez por semana ao Vale do Ribeira para atuar como professora.

"Essa admiração pelos mais velhos, como meu avô e as lideranças da comunidade, me fez entender a importância de estar nesse lugar. Não é fácil. Eu comecei a ser professora na rede estadual, com várias dificuldades e varias barreiras", conta ela.

Professora Maíra Rodrigues da Silva Arquivo Pessoal Entre as disciplinas que leciona estão conteúdos relacionados à pedagogia da educação em comunidades quilombolas, além de outros cursos voltados à formação de estudantes da região. Para ela, esse retorno representa a oportunidade de retribuir à comunidade parte do conhecimento adquirido ao longo dos anos. "Eu ser uma professora de uma universidade publica estadual, do porte da Unicamp, isso é fantástico.

E é também mostrar o brilho para as nossas crianças, que a gente pode ocupar não somente cargo de docente e cientista, mas outros espaços. O quilombola ele é livre pra transitar e estar em defesa do seu território através da educação". Orgulho e exemplo Para moradores, lideranças e jovens, sua trajetória é motivo de orgulho e um exemplo concreto de que a educação pode abrir caminhos e ampliar horizontes.

"Para nós é um marco importante ter a Maíra formada professora e doutora. Para a sociedade brasileira e para o mundo, o professor é o maior doutor. Todo mundo, pode ser advogado e juiz, mas passa pela mão do professor", falou Setembrino da Guia, coordenador de turismo comunitário.

"Ela é uma inspiração para todos nós. Ela inspira as pessoas a quererem cursar a parte da ciência, sobre estudos do solo que ela faz. Ela inspira muitos jovens a seguir essa área também", disse o estudante Paulo Sílvio.

Neste Dia dos Professores, a trajetória da doutora quilombola evidencia que ensinar vai além da transmissão de conteúdo. É um gesto de compromisso com o futuro, capaz de transformar destinos e fortalecer comunidades inteiras. "Eu fico muito feliz de inspirar outros jovens, de entender que a gente esta no mundo e que produzir ciência é você ter consciência.

Não adianta produzir ciência sem ter consciência. Essa ideia de que ela de fato pode ajudar o país, uma nação. Quando a gente fala de vacina, de remediação de áreas contaminada, abundância da biodiversidade, da agrobiodiversidade, que é o que as comunidades quilombolas fazem, e de tudo que elas consegue desenvolver a partir das políticas publicas, isso é fantástico, estamos falando do futuro", disse ela.

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