A arte do bonsai reúne tradição, paciência e cuidado com a natureza. A técnica milenar de cultivar árvores em miniatura permite que plantas atravessem gerações e preservem histórias. Um dos exemplares mais antigos conhecidos é o Ficus retusa Linn, árvore com mais de mil anos que está no Museu de Bonsai Crespi, na Itália.
Apesar de muitas pessoas acreditarem que bonsai é uma espécie de árvore, o termo se refere a uma técnica de cultivo. A palavra, de origem japonesa, significa “plantado em uma bandeja” e tem raízes em uma prática chinesa de horticultura, que chegou ao Japão por volta do século XIV. O cultivo consiste em manter árvores em vasos, com técnicas de poda, modelagem, sustentação e controle das raízes.
O objetivo é reproduzir, em escala reduzida, a estrutura de uma árvore adulta, sem que isso envolva modificações genéticas. A manutenção é parte essencial desse processo. Podas e trocas de vasos ajudam a controlar o crescimento, renovar a planta e preservar sua saúde ao longo dos anos.
Em Maringá, no norte do Paraná, o bonsaísta Ivanir Furlin dedica-se à atividade desde 2000. Proprietário do Ingá Bonsai, viveiro especializado no cultivo e na manutenção dessas árvores, ele encontrou na prática uma atividade que une tranquilidade, conhecimento e trabalho. “O bonsai é uma coisa que traz tranquilidade, paciência.
Treino à paciência. E hoje também é uma fonte de renda, mas esse é o meu menor interesse do bonsai. O que importa mesmo é levar essa cultura”, explica Ivanir.
Para ele, a atividade também representa uma oportunidade de compartilhar uma tradição e valorizar o cuidado individual com cada planta. A técnica exige atenção aos detalhes e cada etapa contribui para o desenvolvimento da planta. Divulgação/Luiza Tiemi.
Uma história que atravessa gerações A tradição do bonsai também chegou ao Brasil com a imigração japonesa. Em 1908, o navio Kasato Maru trouxe os primeiros imigrantes japoneses ao país, junto com costumes e conhecimentos que contribuíram para difundir a técnica. Com o tempo, espécies nativas brasileiras também passaram a ser utilizadas no cultivo, como a Caliandra.
Um dos exemplares mais antigos do viveiro de Ivanir é justamente uma árvore dessa espécie, com 56 anos. A planta foi encontrada após um incêndio atingir uma casa abandonada no bairro onde o bonsaísta morava. Com cerca de quatro metros de altura, a árvore havia sido afetada pelo fogo, mas voltou a brotar.
Ivanir percebeu que ela poderia ser retirada antes da limpeza do terreno e decidiu recuperá-la. O processo de retirar uma árvore diretamente do solo para cultivá-la como bonsai é conhecido como yamadori. Outra técnica utilizada é a estaquia, que consiste em retirar um ramo da planta-mãe e estimular o desenvolvimento de raízes para formar uma nova planta.
Uma arte que atravessa gerações e combina conhecimento horticultural, técnica e dedicação. Divulgação/Luiza Tiemi. Cuidado diário e dedicação Embora possam viver por muitas décadas, os bonsais exigem atenção constante.
A frequência das podas varia conforme a espécie, enquanto a troca de vaso e a manutenção das raízes geralmente ocorrem a cada dois ou três anos. A rega, por sua vez, precisa fazer parte da rotina diária. “O bonsai é tipo um filho.
Você precisa dar atenção todos os dias para ele, porque ele resseca muito rápido. Muitas pessoas trazem o bonsai para eu cuidar quando vão viajar, ou trazem para eu tentar salvar depois”, conta Ivanir. Cada árvore precisa de cuidados específicos, que incluem o controle de fungos e parasitas, a observação do desenvolvimento e a manutenção da estética.
Além da planta, o trabalho envolve a escolha do vaso e dos ornamentos que compõem a apresentação do bonsai. A arte do bonsai também envolve a escolha do vaso e dos ornamentos. Divulgação/Luiza Tiemi.
Um dos exemplares mais antigos do mundo O Ficus retusa Linn é considerado um dos principais candidatos ao título de bonsai mais antigo do mundo, embora sua idade exata não seja conhecida. Com mais de mil anos, o exemplar tem 3,1 metros de altura e 2,8 metros de largura e está exposto no Museu de Bonsai Crespi, na Itália.
A árvore foi cuidada durante muitos anos por monges budistas chineses e, após uma negociação que durou cerca de dez anos, passou a integrar o acervo do museu, onde se tornou uma das principais atrações. Nos primeiros anos de sua formação, foi moldada por Shotaro Kawahara, reconhecido mestre bonsaísta. Ficus retusa Linn, exemplar com mais de mil anos.
Museu do Bonsai Crespi/Divulgação. A trajetória do Ficus e o trabalho de bonsaístas como Ivanir mostram como a técnica exige tempo, dedicação e conhecimento. Mais do que cultivar árvores em miniatura, a prática permite acompanhar processos de crescimento, preservar tradições e desenvolver uma relação contínua com a natureza.
Texto produzido por Luiza Tiemi, acadêmica do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, sob orientação da professora Julliane Brita, para a 24ª edição da Revista Verbo, veiculada na 5ª edição do City Farm FAG.
