Cassiterita, também conhecida como 'ouro negro'. PRF/Divulgação/Arquivo A Justiça Federal em Roraima tornou réus o empresário garimpeiro Rodrigo Martins de Mello, conhecido como Rodrigo Cataratas, outras cinco pessoas e quatro empresas, incluindo a mineradora White Solder Metalurgia e Mineração, por suspeita de envolvimento em um esquema de exploração ilegal de ouro e cassiterita na Terra Indígena Yanomami.
A denúncia foi apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) e aceita pela 4ª Vara da Seção Judiciária no dia 17 de agosto.
Os réus são: Rodrigo Martins de Mello, empresário garimpeiro; White Solder Metalurgia e Mineração Ltda, mineradora Alessandro Saccoman Torrente, sócio da empresa White Solder; Filipe José da Silva Galvão; Jidalias dos Anjos Pinto; Nelcides de Almeida Mello; Valdeci Aparecido Cardoso; Cooperativa de Produtores de Estanho do Brasil (Coopertin); Cataratas Poços Artesianos Ltda; Tarp Táxi Aéreo Ltda.
O g1 solicitou posicionamento sobre a denúncia às defesas de Rodrigo Cataratas, Alessandro Saccoman, Filipe José, Jidalias dos Anjos, Valdeci Aparecido e das empresas White Solder, Cataratas Poços Artesianos e Tarp Táxi Aéreo e aguarda retorno. A reportagem também tenta contato com as defesas de Nelcides de Almeida e da Coopertin.
Com o recebimento da denúncia, os 10 acusados passaram a responder a um processo pelos crimes de organização criminosa, usurpação de bens da União, extração ilegal de recursos minerais, desmatamento em terra pública, uso não autorizado de substância tóxica, invasão de terras da União, atentado contra a segurança do transporte aéreo e lavagem de dinheiro.
Agora no g1 ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 RR no WhatsApp Segundo a denúncia, o grupo atuava de forma organizada na região conhecida como Pupunha, na bacia do Rio Mucajaí. Para dar aparência de legalidade ao minério extraído ilegalmente, os envolvidos usavam a cooperativa. A atividade ocorria em uma região de difícil acesso e dependia de uma estrutura aérea.
As aeronaves eram usadas para retirar o minério e levar combustível, mercúrio, peças de reposição e mantimentos gerais aos garimpeiros isolados. Elas também transportavam trabalhadores e operadores. Os voos pousavam em pistas clandestinas abertas dentro da Terra Yanomami.
Planilhas apreendidas pela Polícia Federal indicam que alguns dos serviços de transporte foram pagos com o próprio minério extraído do garimpo. A investigação apontou que, entre maio e agosto de 2021, a PF identificou movimentação de R$ 54,2 milhões relacionada a mais de 525 toneladas de cassiterita. Entre fevereiro e julho do mesmo ano, a metalúrgica transferiu R$ 166,3 milhões para a cooperativa.
O valor correspondia a 97,6% de todos os recursos recebidos pela entidade. Buracos deixados pelo garimpo ilegal na Terra Yanomami - imagem ilustrativa.
Samantha Rufino/g1 RR LEIA TAMBÉM: PF mira grupo suspeito de usar aeronaves para apoiar garimpo ilegal na Terra Yanomami Área degradada pelo garimpo cai, mas atividade muda estratégia e segue na Terra Indígena Yanomami Empresário é condenado a prisão por liderar grupo criminoso de garimpo ilegal na Terra Yanomami Núcleos de atuação Segundo o Ministério Público Federal, a organização criminosa mantinha uma divisão de tarefas entre os envolvidos.
Um núcleo era responsável pela extração do minério; outro, pelo transporte aéreo; e um terceiro, pelo financiamento, pela compra e industrialização da cassiterita. O núcleo societário e comercial era administrado por Alessandro Saccoman, apontado como responsável pela área econômica do grupo. Ele atuava no financiamento e na logística, fornecia estrutura para a operação e disponibilizava maquinário pesado.
Segundo a denúncia, Saccoman também disponibilizou maquinário para a abertura de cavas de exploração no garimpo. Além disso, coordenava a compra de grandes quantidades de cassiterita e o envio do minério para a metalúrgica White Solder Metalurgia e Mineração, em Rondônia. Rodrigo Cataratas, segundo a denúncia, coordenava o núcleo logístico.
No esquema, ele atuava como cotista-produtor e coordenador aéreo. O empresário usava as empresas Cataratas Poços Artesianos e Tarp Táxi Aéreo para transportar clandestinamente minério, combustível, insumos e garimpeiros. Segundo o MPF, Rodrigo foi um dos maiores beneficiados pelo esquema e recebeu mais de R$ 19 milhões da conta da cooperativa.
O núcleo extrativista gerenciava a área de exploração de minério na região do Pupunha. Quatro denunciados atuavam nessa atividade: Jidalias dos Anjos, Filipe José, Nelcides de Almeida e Valdeci Aparecido. Segundo a denúncia, Jidalias exerceu o comando estratégico das atividades.
Filipe atuava como sócio operador de Jidalias e fazia a ligação entre a extração do minério e a estrutura de trasporte aéreo do grupo criminoso. Ele também era piloto da aeronave usada pelo grupo. Nelcides explorava diretamente áreas de lavra com maquinário pesado próprio e atuava em conjunto com o núcleo de logística.
Entre novembro de 2020 e junho de 2021, ele pagou mais de R$ 5,6 milhões em fretes aéreos e também participava da logística por terra. Valdeci controlava a produção de cassiterita e ouro, administrava o uso de equipamentos e insumos e coordenava o apoio em pistas clandestinas. Segundo a denúncia, ele também fazia a comunicação entre os executores locais e integrantes que ocupavam posições superiores na organização.
Origem falsificada Após a extração, a cassiterita era registrada como se tivesse origem regular. Para isso, os envolvidos usavam a cooperativa que, segundo a denúncia, não tinha cooperados atuantes nem produção própria. A cooperativa registrava o minério como “produção de cooperados regulares” e emitia notas fiscais com base em títulos minerários de outras áreas, localizadas em outro município e que não chegaram a ser exploradas.
Segundo a denúncia, toda a cassiterita extraída ilegalmente na Terra Indígena Yanomami era registrada pela filial da cooperativa em Boa Vista. A unidade emitia notas fiscais de venda do minério para a metalúrgica White Solder. Para sustentar a fraude perante a Agência Nacional de Mineração (ANM) e os órgãos de fiscalização, a cooperativa vinculava o minério a Permissões de Lavra Garimpeira (PLGs) e Guias de Utilização incidentes sobre áreas localizadas em Iracema, no Sul de Roraima.
Outra forma de lavar o dinheiro obtido com o crime, segundo o MPF, era usar a conta da cooperativa. O dinheiro da venda do minério era distribuído aos cotistas ocultos sob as rubricas “spread” ou “benefício”. Depois, circulava por laranjas e contas de passagem antes de ser incorporado ao patrimônio do grupo, inclusive por meio da compra de um imóvel.
O MPF apontou que a cassiterita era transportada até a metalúrgica em Ariquemes, em Rondônia. No local, o minério era fundido e transformado em lingotes de estanho. O caso é acompanhado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPF e faz parte das investigações da Operação Forja de Hefesto, deflagrada em 2023.
Na ação, o MPF pede a condenação dos réus e o pagamento de indenização mínima de R$ 43 milhões pelos danos ambientais causados à União e de R$ 100 milhões por danos morais coletivos ao povo Yanomami. O órgão também pediu a perda do maquinário usado no garimpo e dos valores obtidos com a atividade ilegal. Leia outras notícias do estado no g1 Roraima.
