Mãe autoriza doação de órgãos do filho e acaba recebendo o rim do jovem Três anos após receber o rim do filho, que morreu aos 20 anos em um acidente de moto, no Ano Novo, em Birigui (SP), a dona de casa Graziela Furquim do Amaral, de 41 anos, relatou que “renasceu” ao apresentar melhora no quadro de saúde. A recuperação, no entanto, não diminui a saudade de Kauan Amaral de Farias. À época, a dor da separação do primogênito não impediu a mulher de tomar a decisão de autorizar a doação dos órgãos do jovem.
O que não imaginava era que ela mesma poderia receber o rim do filho, após os médicos identificarem que havia compatibilidade. 📲 Participe do canal do g1 Rio Preto e Araçatuba no WhatsApp Mãe de Birigui recebe doação de rim do próprio filho que teve morte cerebral constada após acidente Arquivo pessoal Graziela convivia com uma doença renal desde julho de 2018, quando sofreu uma crise grave de hipertensão que comprometeu o funcionamento dos rins.
🔎 A hipertensão arterial, conhecida como pressão alta, é uma doença crônica caracterizada pela elevação persistente da pressão do sangue nas artérias. Quando não é controlada, pode sobrecarregar órgãos como coração, rins e cérebro, aumentando o risco de complicações graves, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Em casos graves, a pressão muito elevada pode provocar danos aos órgãos e exigir atendimento médico imediato.
Na época, ela tinha 32 anos, chegou a ficar em coma na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa de Araçatuba (SP) e passou a depender da hemodiálise. Hoje, com a saúde restabelecida e livre das sessões, a mulher faz um apelo sobre a importância de praticar o gesto de amor e solidariedade. “Eu sei que é difícil porque quando eu fiquei sabendo da notícia do meu filho, foi muito difícil de aceitar a morte dele, mas eu não pensei duas vezes.
E autorizei a doação dos órgãos do Kauan porque queria salvar outras vidas. Não sabia que eu podia receber o órgão do meu filho. Eu tenho certeza de que, onde ele está, ele está feliz por ter salvado essas várias vidas e ter me salvado”, comenta a mulher.
A possibilidade de voltar a beber água, se alimentar com menos restrições e deixar de depender de sessões de hemodiálise representa uma nova etapa na vida da mulher, que antes do transplante chegou a pesar 40 quilos. Mesmo com a melhora na saúde, Graziela afirma que a ausência do filho ainda faz parte da rotina. “Não tem como não sentir saudade.
Todos os dias que eu acordo eu lembro dele. De luto sempre vou estar. Mas, se fosse para eu dizer alguma coisa para o Kauan é gratidão.
Gratidão por ele ter entrado na minha vida, por ter sido meu filho. Gratidão por ter me tirado daquele lugar”, se emociona a mãe. Kauan Amaral de Farias morreu em acidente de moto em 2023 em Birigui (SP) Graziela Furquim do Amaral/Arquivo pessoal Kauan é primogênito de Graziela e morreu em Birigui (SP) Graziela Furquim do Amaral/Arquivo pessoal Luta pela vida Durante o tratamento, Kauan, então com 15 anos, ajudava a mãe nas atividades diárias e nos cuidados com a irmã mais nova, que tinha quatro anos.
Segundo Graziela, o filho também foi uma importante fonte de apoio em um período marcado por dificuldades pessoais e de saúde. O jovem acompanhava a rotina de hemodiálises em Araçatuba, além de viajar com ela até Botucatu (SP), onde eram feitos exames no Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) para avaliar a possibilidade do transplante.
Ao longo de cinco anos, ela chegou a ter a possibilidade de receber dois rins de doadores diferentes que tiveram morte encefálica confirmada, mas os órgãos não eram compatíveis. Além disso, em dezembro de 2022, Graziela começou a apresentar falta de ar. Os médicos constataram que a paciente tinha desenvolvido um problema cardíaco decorrente da insuficiência renal avançada.
Na ocasião, a mulher foi atendida e avaliada pelo médico nefrologista do HC da Unesp, Luis Gustavo Modelli de Andrade. Ao g1, o profissional explicou que exames apontaram que o coração de Graziela "trabalhava com menos força do que deveria", o que tornava inviável a realização do transplante naquele momento. “A paciente apresentou um exame mostrando que seu coração estava com a capacidade de bombear o sangue bastante reduzida.
Essa condição é conhecida como insuficiência cardíaca. Isso representava um risco importante porque o transplante renal é uma cirurgia de grande porte e exige que o coração esteja em condições de suportar o procedimento", detalhou o especialista. Independente disso, o médico ressaltou que a mãe permaneceu inscrita na lista de espera por um transplante de doador, mesmo temporariamente sem condições clínicas para receber o órgão.
A rotina de tratamento continuou até o início de 2023, quando a morte do filho mudou a trajetória da família. Médico nefrologista do HC da Unesp de Botucatu (SP), Luis Gustavo Modelli de Andrade Divulgação Graziela Furquim recebeu um transplante de rim do próprio filho e renovou sua qualidade de vida Arquivo pessoal Entre a dor e a esperança Quase um mês depois, Kauan sofreu um acidente de moto na madrugada de 1º de janeiro de 2023, durante as comemorações de Ano Novo.
Ele bateu contra outro veículo em Birigui e foi socorrido inconsciente. O jovem sofreu traumatismo craniano e teve a morte cerebral confirmada em 3 de janeiro, às 15h45. A mãe foi comunicada apenas quatro horas depois.
Apesar do sofrimento de perder o filho que teve os sonhos interrompidos, a mulher transformou a dor em esperança para outras pessoas ao autorizar a captação dos órgãos de Kauan. Logo após tomar a decisão, sem saber que poderia ser beneficiada, Graziele recebeu a notícia, por meio dos médicos do hospital em Botucatu, de que havia compatibilidade e poderia receber o rim esquerdo do filho. O rim direito foi doado para outro paciente que também aguardava o transplante.
Às lágrimas e com o "coração partido", ela encontrou no amor por Kauan a força da qual precisava para enfrentar uma cirurgia de emergência. Na ocasião, novos exames indicaram uma melhora no quadro cardíaco da mulher, que a torna apta a fazer o transplante. Graziela foi submetida à cirurgia em 4 de janeiro, um dia após a confirmação da morte cerebral do filho.
Por causa do procedimento, ela não conseguiu acompanhar o velório e o enterro do filho. A decisão de autorizar a doação permitiu que outros pacientes também fossem beneficiados. Graziele contou à reportagem que todos os órgãos viáveis de Kauan foram doados, incluindo o coração, que salvou um menino de oito anos, cuja identidade não foi revelada.
Segundo dados fornecidos pelo Ministério da Saúde, o transplante de rim foi o segundo mais realizado em 2025 no Brasil, com 6.704 procedimentos. Neste ano, de janeiro a agosto, foram 4.256 cirurgias. Veja os números abaixo.
Nova página na vida A cirurgia e a recuperação da dona de casa foram um sucesso. Embora a previsão inicial fosse de mais de um mês de internação, a paciente recebeu alta em pouco mais de uma semana. Com isso, encerrou um ciclo de viagens constantes e reduziu as visitas ao hospital.
Apesar da melhora, o acompanhamento médico continua. A cada três meses, Graziela vai a Botucatu (SP) para fazer exames e avaliar o funcionamento do rim. Ela também toma medicamentos diariamente para evitar a rejeição do órgão.
A pressão arterial é controlada com remédios. "Hoje, mais de três anos após o transplante, ela continua sendo acompanhada regularmente pela nossa equipe, com consultas aproximadamente a cada três meses. O resultado é muito positivo: seus exames mais recentes mostram que o rim transplantado está funcionando muito bem, com valores próximos aos encontrados em pessoas com função renal normal", finaliza o médico Luis Gustavo.
Compatibilidade Procurado pelo g1, Mario Abbud Filho, nefrologista de transplantes e diretor do Centro de Transplantes do Hospital de Base (HB), da Fundação Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (SP), explicou que a compatibilidade genética é maior entre familiares. Uma norma da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo prevê a possibilidade de destinação de órgãos de doadores falecidos a parentes consanguíneos até o quarto grau ou ao cônjuge que também estejam na lista de espera por um transplante.
A medida está prevista na Resolução SS nº 6, de 8 de fevereiro de 2019, e estabelece critérios específicos para que essa destinação ocorra. No caso dos rins, a possibilidade depende do cumprimento de requisitos: Inscrição ativa do familiar na lista de espera; Compatibilidade sanguínea; Condições clínicas e cirúrgicas adequadas e Resultado negativo no exame de crossmatch, que avalia se há anticorpos capazes de reagir contra o órgão doado.
O médico pontua ainda que, como no caso de Graziela, após o procedimento, o paciente transplantado deve adotar alguns cuidados permanentes para evitar rejeição ou outros tipos de complicações. "O rim transplantado precisa de cuidados durante toda a vida. O principal deles é tomar corretamente os medicamentos chamados imunossupressores, que diminuem a atividade do sistema imunológico e evitam que o organismo rejeite o novo rim", diz o especialista.
Brasil teve mais de 31 mil transplantes em 2025 Arte / g1 Initial plugin text Veja mais notícias da região no g1 Rio Preto e Araçatuba VÍDEOS: confira as reportagens da TV TEM
