Sachê de nicotina Abvrockgroup/Divulgação Um desenvolvimento irônico que surgiu junto com o movimento “Make America Healthy Again” é a apresentação da nicotina como um produto de bem-estar e de melhora de desempenho.

Nas redes sociais, podcasts, comunidades de bem-estar e startups de tecnologia, personalidades conhecidas desse universo e outros influenciadores passaram a apresentar a nicotina como um composto mal compreendido, cujos possíveis benefícios teriam sido ofuscados por sua associação negativa com o cigarro.

Como resultado, a nicotina está sendo reposicionada: de uma substância que causa dependência e está ligada ao uso de tabaco para um produto natural que poderia servir para tudo, desde melhorar o foco até proteger contra o declínio cognitivo. Essa tendência inclui o uso isolado da nicotina em produtos sem combustão, como sachês de nicotina, ou em combinação com cafeína e nootrópicos, substâncias comercializadas com a promessa de melhorar a cognição.

Como médica pneumologista e pesquisadora que estuda a dependência de nicotina e as consequências para a saúde dos produtos de tabaco e nicotina, preocupo-me com as alegações de que a nicotina pode melhorar o bem-estar, a produtividade e o desempenho cognitivo. Agora no g1 Qual é a diferença entre nicotina e tabaco?

Algumas dessas alegações partem da observação de que a nicotina é um composto vegetal de ocorrência natural encontrado principalmente no tabaco e, em quantidades mínimas, em vegetais da família das solanáceas, como tomate, batata e berinjela. Defensores do uso da nicotina também se apoiam em estudos que sugerem que ela pode afetar determinados aspectos da cognição e do funcionamento cerebral.

No entanto, extrapolar essas descobertas para alegações amplas sobre produtividade, saúde cerebral, longevidade ou bem-estar vai muito além do que foi demonstrado em estudos com seres humanos. A nicotina é o principal fator responsável pela dependência do tabaco em produtos como cigarros, cigarros eletrônicos e a maioria das outras formas comerciais de tabaco.

Os maiores riscos à saúde surgem quando o tabaco é queimado, processo que gera milhares de substâncias tóxicas, incluindo agentes cancerígenos, monóxido de carbono e material particulado fino. A exposição repetida a esses produtos da combustão pode causar câncer, doença pulmonar obstrutiva crônica, doenças cardiovasculares e diversas outras doenças relacionadas ao tabagismo. Dois maços de cigarro exibem advertências sobre os danos causados pelo tabagismo.

— Foto: James Leynse/Corbis Historical via Getty Images Embora muitas doenças relacionadas ao tabagismo resultem da exposição aos produtos da combustão, a própria nicotina tem efeitos negativos bem conhecidos sobre o cérebro e o organismo. A nicotina ativa o sistema nervoso simpático — a resposta de “luta ou fuga” do organismo —, o que aumenta a frequência cardíaca e a pressão arterial e prejudica o sono. A estimulação repetida desse sistema pode impor uma carga adicional ao coração.

A exposição à nicotina é motivo de preocupação especial durante fases críticas do desenvolvimento. A exposição pré-natal à nicotina tem sido associada a efeitos adversos sobre o crescimento e o desenvolvimento fetal. A exposição durante a adolescência pode alterar sistemas neurais envolvidos na atenção, na aprendizagem e na recompensa, aumentando a vulnerabilidade à dependência.

O cigarro convencional tem um miligrama de nicotina e os sachês de nicotina contêm de 4 a 18 miligramas da substância Adobe Stock Como a nicotina altera o cérebro A nicotina também leva à dependência por meio da ativação dos circuitos de recompensa do cérebro. A acetilcolina é um neurotransmissor fundamental — um mensageiro químico do cérebro — envolvido na atenção, na aprendizagem, na memória e no processamento de informações.

A nicotina atua em muitos dos mesmos receptores nicotínicos de acetilcolina que normalmente respondem à acetilcolina, aumentando temporariamente o estado de alerta, a atenção e a excitação. A ativação desses receptores também influencia a liberação de outros neurotransmissores, incluindo a dopamina, que desempenha um papel importante na recompensa e no reforço. No entanto, a nicotina não reproduz a sinalização normal da acetilcolina.

Ao contrário da acetilcolina, os efeitos da nicotina duram muito mais tempo e alteram a atividade em todo o cérebro. Com a exposição repetida, o cérebro se adapta à presença da nicotina. Os receptores se tornam menos responsivos, e o cérebro compensa aumentando o número de receptores de nicotina, o que contribui para a dependência.

Nicotina melhora foco e produtividade? Uma alegação comum nas comunidades de bem-estar é que a nicotina funciona como um estimulante cognitivo capaz de melhorar o foco e a produtividade. Alguns estudos indicam que a nicotina pode melhorar temporariamente a atenção, a vigilância, o tempo de reação e alguns aspectos da memória de trabalho, mas os resultados são mistos.

Pesquisas sugerem que a nicotina pode beneficiar pessoas com comprometimento cognitivo leve, mas não parece melhorar a cognição em indivíduos saudáveis e pode até piorar o desempenho cognitivo em pessoas que já apresentam desempenho mais alto. Além disso, muitos desses estudos incluem usuários regulares de nicotina que são dependentes da substância. Quando deixam de usar nicotina, usuários regulares costumam apresentar dificuldade de concentração, irritabilidade, ansiedade, inquietação e prejuízo da atenção.

A reintrodução da nicotina frequentemente alivia esses sintomas, o que dificulta determinar se as melhorias observadas refletem de fato um aprimoramento cognitivo ou simplesmente a reversão dos sintomas de abstinência.

Em outras palavras, a nicotina pode proporcionar melhorias de curto prazo na atenção e no estado de alerta em determinados usuários, mas há poucas evidências de que ela melhore de forma significativa o desempenho acadêmico, a inteligência, a criatividade, as funções executivas ou a produtividade no trabalho. As evidências mostram claramente que usar nicotina mesmo sem tabaco continua sendo prejudicial e causa dependência.

OMS alerta sobre uso de sachês de nicotina, que são proibidos no Brasil E o efeito sobre estresse e humor? Influenciadores de bem-estar também promovem a nicotina como uma ferramenta para controlar o estresse e melhorar o humor. A nicotina ativa os circuitos de recompensa no cérebro, o que pode criar uma sensação temporária de prazer e bem-estar.

No entanto, o uso prolongado de nicotina pode interferir no sistema de resposta ao estresse do organismo, o que pode tornar o estresse e a ansiedade mais difíceis de controlar. Pesquisas mostram de forma consistente que pessoas que param de fumar apresentam redução da ansiedade, da depressão e do estresse, além de melhora do humor e da qualidade de vida geral ao longo do tempo. Na verdade, a interrupção do uso de nicotina a longo prazo está associada a uma melhor saúde mental e a maior bem-estar.

Portanto, embora a nicotina possa criar uma sensação subjetiva temporária de alívio do estresse, as evidências atuais não sustentam seu uso para reduzir o estresse, melhorar o humor ou tratar ansiedade ou depressão. Nicotina ajuda a envelhecer melhor? Algumas das alegações mais ambiciosas que surgem no movimento de bem-estar pró-nicotina sugerem que a nicotina protege contra demência, doença de Alzheimer, doença de Parkinson e declínio cognitivo relacionado à idade.

Essas alegações se baseiam em descobertas que sugerem que a nicotina pode influenciar circuitos neurais envolvidos na memória e na atenção, além de estudos em animais e em laboratório que investigam se a nicotina poderia modificar processos relacionados a doenças associadas ao declínio cognitivo.

No entanto, estudos em seres humanos não demonstraram que a nicotina possa prevenir a demência, retardar a progressão da doença de Alzheimer, preservar a função cognitiva a longo prazo ou melhorar os resultados na doença de Parkinson. Alguns defensores do bem-estar e da longevidade afirmam que a nicotina preserva a função cognitiva, retarda o envelhecimento biológico ou favorece a longevidade.

Essas alegações se baseiam, em grande parte, em estudos de laboratório que mostram que a nicotina pode afetar vias celulares relacionadas ao estresse oxidativo e em estudos com animais que sugerem efeitos sobre a inflamação e outros mecanismos ligados ao envelhecimento e às doenças. No entanto, os resultados de estudos de laboratório e em animais não se traduziram em evidências de que a nicotina favoreça um envelhecimento saudável, prolongue a vida ou previna doenças relacionadas à idade em seres humanos.

A nicotina é o principal fator responsável pela dependência do tabaco em produtos como cigarros, cigarros eletrônicos e a maioria das outras formas comerciais de tabaco.

Geri Tech/Pexels Quando a nicotina é usada como tratamento As terapias de reposição de nicotina aprovadas pela Food and Drug Administration, incluindo adesivos, gomas de mascar e pastilhas, demonstraram ajudar pessoas com dependência de nicotina a reduzir os sintomas de abstinência e a vontade de consumir a substância, facilitando a interrupção do tabagismo.

Quando usados conforme as orientações, esses medicamentos podem reduzir os sintomas da abstinência de nicotina que frequentemente dificultam que as pessoas parem de fumar. Mas essa forma aprovada de tratamento da dependência não deve ser confundida com alegações de que a nicotina melhora a cognição, promove o bem-estar ou favorece um envelhecimento saudável.

Na verdade, usar produtos de nicotina fora de tratamentos baseados em evidências para interromper ou reduzir o uso de tabaco traz o risco de desenvolver dependência de nicotina. *Hasmeena Kathuria é médica pneumologista e pesquisadora da Universidade de Wisconsin–Madison, nos Estados Unidos. **Este texto foi publicado originalmente no site da The Conversation.